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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Serie - (8) A vida e os ensinamentos de jesus - Os anos da adolescenica

Serie - (8) A vida e os ensinamentos de jesus - Os anos da adolescenica

Esta série foi extraída do Livro de Urântia. Os 77 capítulos, mais de 700 páginas, que ocupam um terço do livro, dão dia a dia, toda a vida de Jesus Cristo desde sua infância. Dão 16 vezes mais informações sobre a vida e os ensinamentos de Jesus do que a Bíblia. É o relato mais espiritual sobre Jesus até hoje escrito.



OS ANOS DA ADOLESCÊNCIA

À medida que entrava nos seus anos de adolescência, Jesus viu-se como o dirigente único de uma grande família e como o seu único suporte. Uns poucos anos depois da morte do seu pai, todas as suas propriedades tinham sido perdidas. E, com o passar do tempo, mais consciente ele ficava da sua preexistência; ao mesmo tempo ele começou a compreender mais plenamente que estava presente na Terra e na carne com o propósito expresso de revelar o seu Pai do Paraíso aos filhos dos homens.

Nenhum adolescente que tenha vivido ou que irá jamais viver neste, ou em qualquer outro mundo, teve ou terá problemas mais graves a resolver ou dificuldades mais intrincadas para desembaraçar. Nenhum jovem de Urântia jamais será convocado a passar por conflitos mais angustiantes e por provas mais duras do que Jesus, durante esses árduos anos entre os seus quinze e os vinte anos de idade.

Tendo, pois, conhecido a experiência real de viver esses anos da adolescência em um mundo assediado pelo mal e atormentado pelo pecado, o Filho do Homem adquiriu todo o conhecimento sobre a experiência de vida dos jovens de todos os reinos de Nébadon e assim, para sempre, ele tornou-se o refúgio de compreensão para os adolescentes angustiados e perplexos de todas as idades e em todos os mundos do universo local.

Lentamente, mas com segurança e por meio de uma experiência real, esse Filho divino está conquistando o direito de tornar-se o soberano do seu universo, o dirigente supremo e inquestionável de todas as inteligências criadas em todos os mundos do universo local, e o refúgio de compreensão para todos os seres, de todas as idades e graus de dons pessoais e de experiência.

1. O DÉCIMO SEXTO ANO (10 d.C.)


O Filho encarnado passou pela meninice e experimentou uma infância sem nada de extraordinário. Então, emergindo daquele período de transição cheio de provações, entre a infância e a juventude, tornou-se o Jesus adolescente.
Nesse ano, ele alcançou a sua estatura física definitiva. Era um jovem formoso e viril. Tornou-se cada vez mais sóbrio e circunspecto, mas era compassivo e amável. Os seus olhos eram doces, mas inquisidores; o seu sorriso era sempre simpático e calmo. A sua voz era musical, mas autoritária; a sua saudação cordial, mas sem afetação. Sempre, mesmo no mais comum dos contatos, parecia evidenciar-se uma natureza dupla, a humana e a divina. E, sempre, ele demonstrava a combinação da compaixão do amigo com a autoridade do mestre. E esses traços de personalidade cedo se tornaram manifestos, mesmo nos anos adolescentes.

Esse jovem forte e robusto fisicamente também teve o crescimento pleno do seu intelecto humano; não a experiência total do pensamento humano, mas a plenitude da capacidade para o desenvolvimento intelectual. Ele possuía um corpo saudável e bem proporcional, uma mente penetrante e analítica, uma disposição simpática e gentil, um temperamento flutuante, de um certo modo, mas ativo, e tudo isso estava tornando-se organizado em uma personalidade forte, tocante e atraente.

Com o tempo, tornou-se mais difícil para sua mãe e para seus irmãos compreendê-lo; eles tropeçavam no que ele dizia e interpretavam mal o que ele fazia. Não estavam preparados para compreender a vida do irmão mais velho, porque a sua mãe havia dado-lhes a entender que ele estava destinado a transformar-se no libertador do povo judeu. Depois que essas indicações foram dadas por Maria como uma confidência de família, imaginai a confusão deles quando Jesus negava francamente todas essas idéias e intenções.

Nesse ano, Simão entrou para a escola, e eles foram obrigados a vender outra casa. Tiago, agora, encarregava-se de ensinar as suas três irmãs, duas das quais tinham já idade suficiente para começar a estudar seriamente. Tão logo Rute cresceu, foi confiada às mãos de Míriam e de Marta. Comumente as meninas das famílias judias recebiam pouca educação, mas Jesus era da opinião (e a sua mãe concordava) de que as meninas deviam ir à escola como os garotos e, já que a escola da sinagoga não as receberia, nada havia a fazer senão dar aulas especiais em casa para elas.

Durante esse ano, Jesus ficou confinado à sua bancada de trabalho. Felizmente tinha bastante trabalho; e o que fazia era de uma qualidade tão superior que nunca ficava sem ter o que fazer, não importa quão escasso ficasse o trabalho naquela região. Às vezes tinha tanta coisa para fazer que Tiago lhe ajudava.

Lá pelo fim desse ano ele tinha já decidido que, depois de criar todos e de vê-los casados, iniciaria publicamente o seu trabalho de mestre da verdade como um revelador do Pai celeste ao mundo. Ele sabia que não iria tornar-se o esperado Messias judeu, e concluiu que era quase inútil discutir essa questão com a sua mãe; e decidiu permitir a ela alimentar as idéias que quisesse, pois tudo o que ele tinha dito no passado pouco ou nenhum efeito tivera sobre ela, além do que se lembrava de que o seu pai nunca tinha sido capaz de dizer nada que mudasse a opinião dela. Desse ano em diante, ele passou a falar cada vez menos com a sua mãe e com todos os outros, sobre os seus problemas. A sua missão era tão singular que nenhum ser vivo na Terra podia dar-lhe conselhos sobre como cumpri-la.

Ainda que muito jovem, ele era um pai real para a família; passava cada hora possível com os mais jovens e, de fato, eles o amavam. Sua mãe afligia-se de vê-lo trabalhando tão duramente; lamentava que ficasse, dia após dia, labutando na bancada de carpinteiro, ganhando a vida para a família, em vez de estar, como eles tão carinhosamente planejaram, em Jerusalém estudando com os rabinos. Mesmo havendo tanta coisa no seu filho que Maria não conseguia entender, ela o amava e apreciava profundamente a boa vontade com a qual ele assumia a responsabilidade da casa.

2. O DÉCIMO SÉTIMO ANO (11 d.C.)

Foi nessa época que houve uma considerável agitação, especialmente em Jerusalém e na Judéia, uma rebelião contra o pagamento de impostos a Roma. Estava surgindo um forte partido nacionalista, que logo seria chamado de zelote. Os zelotes, contrariamente aos fariseus, não estavam querendo esperar pela vinda do Messias. Eles propunham gerar uma crise, por meio da revolta política.
Um grupo de organizadores, de Jerusalém, chegou na Galiléia e estava obtendo êxito até que se apresentou em Nazaré. Quando vieram para ver Jesus, ele escutou-os com atenção e fez muitas perguntas, mas se recusou a aderir ao partido. Não quis revelar as razões que tinha, para não aderir, e a sua recusa teve o efeito de manter à parte também muitos dos seus companheiros jovens de Nazaré.

Maria tudo fez para induzi-lo a aderir, mas ela não conseguiu levá-lo a ceder em nada. Ela chegou mesmo a insinuar que a recusa, de ceder ao pedido dela, de abraçar a causa nacionalista, era insubordinação dele, uma violação da sua promessa, feita quando voltaram de Jerusalém, de que ele seria obediente aos seus pais; mas, em resposta a essa insinuação, ele apenas colocou gentilmente a mão no ombro dela e, olhando em seu rosto, disse: “Minha mãe, como podes?” E Maria retratou-se.
Um dos tios de Jesus (Simão, irmão de Maria) tinha já aderido a esse grupo, tornando-se depois oficial na divisão da Galiléia. E, durante vários anos, houve algo como um estranhamento entre Jesus e o seu tio.

Mas muitas encrencas estavam acontecendo em Nazaré. A atitude de Jesus, nessas questões, tinha gerado uma cisão entre os jovens judeus da cidade. Cerca da metade estava ligada à organização nacionalista, e a outra metade começou a formar um grupo de oposição, de patriotas moderados, esperando que Jesus assumisse a liderança. Eles ficaram estupefatos quando Jesus recusou a honra que lhe havia sido oferecida, dando como desculpa as suas pesadas responsabilidades familiares, coisa que todos admitiram. Mas a situação ficou ainda mais complicada quando, pouco depois, um judeu abastado, Isaac, que emprestava dinheiro aos gentios, adiantou-se, concordando em sustentar a família de Jesus, se ele deixasse as suas ferramentas e assumisse a liderança desses patriotas de Nazaré.

Jesus, então, mal tendo completado dezessete anos de idade, encontrou-se frente a uma situação das mais delicadas e difíceis do princípio da sua vida. As questões de patriotismo, especialmente quando complicadas por uma opressão estrangeira de coleta de impostos, são sempre difíceis de lidar, para os líderes espirituais, e sem dúvida foi assim nesse caso, já que a religião judaica estava envolvida em toda essa agitação contra Roma.

A posição de Jesus tornou-se ainda mais difícil porque a sua mãe e o tio, e até mesmo Tiago, o seu irmão mais jovem, todos, pressionaram-no para unir-se à causa nacionalista. Os melhores judeus de Nazaré haviam sem exceção aderido, e aqueles jovens todos, que não tinham aderido ao movimento, alistar-se-iam no momento em que Jesus mudasse de idéia. E ele não tinha senão um conselheiro sábio, em toda a Nazaré, e esse era o seu velho professor, o chazam; que lhe aconselhou sobre a sua resposta ao comitê dos cidadãos de Nazaré, quando eles viessem perguntar-lhe sobre a sua resposta ao apelo público que tinha sido feito. Em toda a jovem vida de Jesus essa era, de fato, a primeira vez que ele recorria conscientemente a uma manobra estratégica. Até então, ele contara sempre com uma exposição franca da verdade, para esclarecer as situações, mas agora não podia declarar toda a verdade. Não podia dar a entender que fosse mais do que um homem; não podia desvelar a idéia da missão que o esperava, até que alcançasse uma idade mais madura. A despeito de todas essas limitações, a sua fidelidade religiosa e a sua lealdade nacional estavam diretamente em jogo. A sua família estava em tumulto, os seus amigos de juventude divididos, e todo o contingente judeu da cidade estava em ebulição. E pensar que era ele o responsável por tudo aquilo! E quão inocente ele fora quanto à intenção de causar quaisquer complicações e, menos ainda, uma conturbação daquela espécie.

Algo tinha de ser feito. Devia reafirmar a sua posição, e foi o que ele fez, brava e diplomaticamente, para a satisfação de muitos, mas não de todos. Manteve-se nos termos do seu argumento inicial, sustentando que o seu primeiro dever era para com a sua família, que uma mãe viúva e oito irmãos e irmãs necessitavam de algo mais do que o dinheiro poderia comprar – as necessidades físicas da vida –, que eles tinham direito aos cuidados e ao apoio de um pai, e que ele não podia, em sã consciência, eximir-se da obrigação que um acidente cruel tinha colocado nos seus ombros.

Elogiou a sua mãe e o seu irmão de mais idade, por terem a boa vontade de liberá-lo, mas reiterava que a sua lealdade a um pai morto o proibia de deixar a família, não importava quanto dinheiro viesse a ser dado para o sustento material deles, fazendo a inesquecível afirmação de que “o dinheiro não pode amar”. No decorrer da sua fala, Jesus fez várias referências veladas à sua “missão de vida”, explicando que, independentemente de ser ela compatível ou não com as idéias de militância, esta, como tudo o mais na sua vida, tinha sido deixada de lado para que ele pudesse ser capaz de desincumbir-se fielmente do seu compromisso com a família. Todos em Nazaré sabiam bem que ele era um bom pai para a sua família, e essa questão ficava tão próxima do coração de todos os judeus nobres, que o pretexto de Jesus encontrou uma reação de boa apreciação nos corações de muitos dos seus ouvintes; e alguns daqueles que estavam com essa predisposição ficaram desarmados por um discurso feito por Tiago, o qual, ainda que não estando no programa, foi pronunciado nesse momento. Naquele mesmo dia o chazam tinha ensaiado esse discurso com Tiago, mas isso era um segredo deles.

Tiago declarou que ele estava certo de que Jesus ajudaria a libertar o seu povo, se ele (Tiago) tivesse idade suficiente para assumir a responsabilidade pela família, mas que, caso apenas eles consentissem que Jesus permanecesse “conosco, sendo o nosso pai e mestre, então eles teriam não só um líder na família de José, mas em breve cinco leais nacionalistas, pois não há cinco de nós rapazes prontos para crescer e, sob a liderança do nosso pai-irmão, servir a nossa nação?” E assim o menino trouxe um final bem feliz a uma situação bastante tensa e ameaçadora.

A crise chegara ao fim, pelo momento, mas esse incidente nunca foi esquecido em Nazaré. A agitação perdurou; não mais Jesus estava nas graças de um favorecimento universal; a divisão dos sentimentos nunca foi totalmente superada. E, agravada por outras ocorrências subsequentes, foi essa uma das razões principais pelas quais ele mudou-se para Cafarnaum, anos depois. Daí em diante, Nazaré manteve os seus sentimentos divididos em relação ao Filho do Homem.

Tiago diplomou-se na escola, nesse ano, e começou a trabalhar em período integral na oficina de carpintaria em casa. Tornara-se um trabalhador inteligente com as ferramentas e, agora, estava encarregado de fazer os balancins e as juntas de arados enquanto Jesus começou a ocupar-se mais com os serviços de acabamento interior e os trabalhos mais delicados de marcenaria.
Nesse ano, Jesus fez um grande progresso na organização da sua mente. Gradualmente, vinha ele conseguindo harmonizar as suas naturezas divina e humana, e conseguiu toda essa organização do seu intelecto por força das suas próprias decisões e apenas com a ajuda do seu Monitor residente, exatamente o mesmo Monitor que todos os mortais normais, em todos os mundos de pós-outorga, têm dentro das suas mentes. Até então, nada de supranatural tinha acontecido, na carreira desse jovem, excetuando-se a visita de um mensageiro que certa vez aparecera para ele durante a noite em Jerusalém, despachado por Emanuel, o seu irmão mais velho.

3. O DÉCIMO OITAVO ANO (12 d.C.)

Durante esse ano, todas as propriedades da família, exceto a casa e o jardim, foram liquidadas. A última peça de propriedade, em Cafarnaum (exceto parte de uma outra), que já estava hipotecada, foi vendida. O que receberam foi usado nos impostos, na compra de algumas novas ferramentas para Tiago, e no pagamento de uma dívida, devido à posse da loja de suprimento e reparos, que há muito servia à família, perto da parada das caravanas, e que Jesus agora propunha comprar de volta, já que Tiago tinha idade suficiente para trabalhar na oficina da casa e ajudar Maria com o lar.

Com a pressão financeira assim aliviada momentaneamente, Jesus decidiu levar Tiago à Páscoa. Eles foram a Jerusalém um dia antes, para ficarem a sós, passando por Samaria. Foram caminhando, e Jesus contou a Tiago sobre os locais históricos do percurso, do modo como o seu pai tinha ensinado a ele durante uma viagem semelhante, cinco anos antes.
Ao passarem por Samaria, viram muitos espetáculos estranhos. Nessa viagem eles falaram de muitos dos problemas pessoais, familiares e nacionais. Tiago era um tipo de jovem bem religioso e, embora não concordasse plenamente com a sua mãe a respeito do pouco que sabia sobre os planos para o trabalho da vida de Jesus, ele esperava ansiosamente que chegasse o momento em que fosse capaz de assumir a responsabilidade pela família, para que Jesus pudesse começar a sua missão. Ele apreciava muito que Jesus o estivesse levando à Páscoa e, mais abertamente do que nunca, conversaram sobre o futuro.

Jesus pensou muito enquanto atravessavam a Samaria, particularmente em Betel, e quando bebiam do poço de Jacó. Ele e o seu irmão conversaram sobre as tradições de Abraão, Isaac e Jacó. Jesus empenhou-se muito em preparar Tiago para aquilo que este devia testemunhar em seguida em Jerusalém, procurando assim minimizar o impacto que ele próprio experimentara na sua primeira visita ao templo. Mas Tiago não era tão sensível a algumas dessas cenas. Ele comentou sobre o modo superficial e duro com o qual alguns dos sacerdotes executavam os seus deveres, mas no todo ele gostou muito da sua permanência em Jerusalém.
Jesus levou Tiago à Betânia para a ceia Pascal. Simão tinha falecido e descansava ao lado dos seus pais, e Jesus ocupou o lugar do chefe da família na cerimônia Pascal, tendo trazido o cordeiro pascal do templo.

Depois da ceia de Páscoa, Maria assentou-se para conversar com Tiago, enquanto Marta, Lázaro e Jesus conversaram até bem tarde da noite. No dia seguinte eles foram aos serviços no templo, e Tiago foi recebido na comunidade de Israel. Naquela manhã, quando pararam no cume do monte das Oliveiras, para ver o templo, enquanto Tiago expressava a sua admiração, Jesus contemplou Jerusalém em silêncio. Tiago não podia compreender o comportamento do seu irmão. Naquela noite, novamente, eles retornaram a Betânia e teriam partido para casa no dia seguinte, mas Tiago insistiu em irem de novo visitar o templo dizendo que queria escutar os mestres. E, se bem que isso fosse verdade, secretamente no seu coração, o que ele queria mesmo era ver Jesus participar das discussões, como ele tinha ouvido a sua mãe contar. Assim, foram ao templo e ouviram as discussões, mas Jesus não fez nenhuma pergunta. Tudo aquilo pareceu pueril e insignificante por demais para aquela mente de Deus e de homem que despertava – ele conseguia apenas sentir piedade deles. Tiago estava decepcionado, porque Jesus nada dissera. E, às perguntas do irmão, Jesus apenas respondeu: “Minha hora ainda não chegou”.

No dia seguinte, viajaram para casa pelo caminho de Jericó e pelo vale do Jordão, e Jesus contou muitas coisas no caminho, inclusive falou sobre a sua viagem anterior pela mesma estrada, quando tinha treze anos de idade.
Ao retornar a Nazaré, Jesus começou a trabalhar na velha loja de reparos da família e estava muito contente por estar sendo capaz de se encontrar com tanta gente, de todos os cantos do país e dos distritos vizinhos, que vinha todos os dias. Jesus amava o povo verdadeiramente – toda a gente comum. E todos os meses ele fazia o pagamento da loja e, com a ajuda de Tiago, continuava a manter a família.

Várias vezes por ano, sempre que não havia visitantes para desempenhar essa função, Jesus continuava a ler as escrituras aos sábados na sinagoga e, muitas vezes, oferecia comentários sobre a leitura, mas usualmente ele selecionava as passagens para as quais os comentários seriam desnecessários. Ele era hábil, e arranjava a ordem de leitura das várias passagens, de modo que uma iluminaria a outra. Ele nunca deixou, quando o tempo permitia, de levar os seus irmãos e irmãs nas tardes de sábado, para os seus passeios junto à natureza.

Nessa época o chazam inaugurou um clube de jovens para uma discussão filosófica, que se reunia nas casas de diferentes membros e, muitas vezes, na sua própria casa, e Jesus tornou-se um membro proeminente desse grupo. Assim, pois, ele capacitava-se a recuperar um pouco do seu prestígio local, perdido na época das recentes controvérsias nacionalistas.
A sua vida social, ainda que restrita, não estava de todo negligenciada. Ele tinha muitos amigos calorosos e admiradores fervorosos, tanto entre os jovens rapazes, quanto entre as moças de Nazaré.

Em setembro, Isabel e João vieram visitar a família em Nazaré. João tendo perdido o seu pai, tinha a intenção de voltar para as colinas da Judéia e ocupar-se da agricultura e cuidar de rebanhos, a menos que Jesus o aconselhasse a permanecer em Nazaré para tornar-se carpinteiro ou para fazer alguma outra espécie de trabalho. Eles não sabiam que a família de Nazaré estava praticamente sem nenhum dinheiro. Quanto mais Maria e Isabel conversavam sobre os seus filhos, mais ficavam convencidas de que seria bom para os dois jovens homens trabalharem juntos e verem um pouco mais um ao outro.

Jesus e João tiveram várias conversas; e falaram sobre muitas questões íntimas e pessoais. Quando terminaram esse encontro, decidiram não mais se ver, até que se encontrassem no ministério público depois que “o Pai celeste chamasse” a ambos para os seus trabalhos. João estava tremendamente impressionado por aquilo que vira em Nazaré; e, pois, devia retornar à casa e trabalhar para sustentar a sua mãe. Estava convencido de que seria uma parte da missão da vida de Jesus, mas percebeu que Jesus deveria ocupar-se, por muitos anos ainda, com a criação da sua família; e assim, pois, ele ficava mais contente ainda por retornar à sua casa e estabelecer-se, cuidando da pequena fazenda deles e atendendo às necessidades da sua mãe. E nunca mais João e Jesus se viram, até o dia em que o Filho do Homem apresentou-se para o batismo, no Jordão.

No dia 3 de dezembro desse ano, um sábado, à tarde, pela segunda vez, a morte atingiu essa família de Nazaré. O pequeno Amós, o irmão bebê, morreu depois de ficar doente por uma semana, com uma febre alta. Depois de passar o tempo da tristeza, tendo o seu primogênito como único apoio, Maria afinal, no sentido mais pleno, reconheceu Jesus como sendo realmente o chefe da família; e ele estivera realmente sendo digno de sê-lo.

Por quatro anos o padrão de vida deles declinou de fato; ano após ano eles sentiram o aperto crescente da pobreza. No final desse ano enfrentaram uma das mais difíceis experiências de todas as suas árduas lutas. Tiago não tinha ainda começado a ganhar bem, e as despesas de um funeral, somadas a todo o restante, vinha consterná-los ainda mais. Jesus, todavia, diria apenas à sua mãe, ansiosa e triste: “Mãe Maria, a tristeza não vai nos ajudar; estamos todos dando o melhor de nós, e o sorriso da mãe bem que poderia nos inspirar a fazer ainda melhor. Dia a dia somos fortalecidos para essas tarefas, pela nossa esperança de dias melhores que virão”. O seu otimismo sólido e prático era verdadeiramente contagiante; todas as crianças viviam em uma atmosfera de antecipação de tempos melhores e de coisas melhores. E a coragem esperançosa de Jesus contribuiu poderosamente para o desenvolvimento de caracteres fortes e nobres, a despeito da pobreza deprimente que atravessavam.

Jesus possuía a capacidade de mobilizar efetivamente todos os seus poderes da mente, da alma e do corpo, para a tarefa imediatamente à mão. Ele podia concentrar a sua mente em profundos pensamentos, no problema que queria resolver, e isso, junto com a sua paciência inexaurível, fazia-o capaz de resistir serenamente às provações de uma existência mortal difícil – de viver como se estivesse “vendo Aquele que é Invisível”.

4. O DÉCIMO NONO ANO (13 d.C.)

Nessa época, Jesus e Maria estavam entendendo-se muito melhor. Ela considerava-o menos como um filho; ele tinha transformado-se mais em um pai para os filhos dela. A vida de cada dia estava repleta de dificuldades práticas e imediatas. Eles falavam menos frequentemente da obra da sua vida, com o passar do tempo, e o pensamento de cada um deles estava devotado de ambas as partes ao sustento e à criação da família de quatro garotos e três meninas.

No começo desse ano, Jesus tinha conquistado totalmente a aceitação da sua mãe para os seus métodos na educação das crianças – o estímulo positivo para que fizessem o bem, em lugar do velho método judeu de proibir de fazer o mal. Na sua casa, e em toda a sua carreira de ensinamento público, Jesus invariavelmente empregou a forma positiva de exortação. Sempre, e em todos os lugares, ele dizia: “Tu devias fazer isso – deverias fazer aquilo. Ele nunca empregava o modo negativo de ensinar, que se derivava de tabus antigos. Ele evitava colocar ênfase no mal, proibindo-o, e ao mesmo tempo exaltava o bem por exigir que ele fosse feito. A hora da prece no seu lar era a ocasião para discutir toda e qualquer coisa relativa ao bem-estar da família.

Jesus tão sabiamente disciplinou os seus irmãos e irmãs, desde a mais tenra idade, que pouca ou quase nenhuma punição jamais se fazia necessária para assegurar a obediência pronta e sincera deles. A única exceção era Judá, a quem, em diversas ocasiões, Jesus julgou necessário impor penalidades, pelas suas infrações às regras da casa. Em três ocasiões, quando foi considerado sábio punir Judá por violações deliberadas e confessas das regras de conduta da família, a sua punição foi fixada por decisão unânime dos irmãos mais velhos, sendo consentida pelo próprio Judá, antes de ser ministrada.

Ao mesmo tempo em que Jesus era muito metódico e sistemático, em tudo o que fazia, havia também, em todas as suas decisões administrativas, uma elasticidade benevolente de interpretação e uma individualidade de adaptação que impressionavam muito a todas crianças, pelo espírito de justiça com que atuava o seu pai-irmão. Ele nunca disciplinava os seus irmãos e irmãs arbitrariamente, e essa equanimidade uniforme e essa consideração pessoal faziam com que Jesus fosse muito querido por toda a sua família.

Tiago e Simão cresceram tentando seguir o plano de Jesus, de aplacar os seus companheiros belicosos, e, algumas vezes irados, pela persuasão e pela não-resistência, no que haviam tido bastante êxito; mas José e Judá, ao mesmo tempo em que consentiam nessa educação em casa, apressavam-se em defender a si próprios, quando atacados pelos seus camaradas; Judá em particular era culpado de violar o espírito desses ensinamentos. A não-resistência, porém, não era uma regra da família. Nenhuma penalidade estava relacionada à violação dos ensinamentos pessoais.

Em geral, todas as crianças, e particularmente as meninas, consultavam Jesus sobre os problemas da sua infância e confiavam nele exatamente como teriam feito com um pai afeiçoado.
Tiago crescia como um jovem bem equilibrado e de bom temperamento mesmo, mas ele não era inclinado, como Jesus, para a espiritualidade. Ele era um estudante melhor do que José, que, ainda que sendo um trabalhador fiel, tinha uma mente ainda menos espiritualizada. José era laborioso e não tinha aptidões intelectuais, no mesmo nível das outras crianças. Simão era um menino bem-intencionado, mas muito sonhador. Ele foi lento para se estabelecer na vida e era a causa de uma ansiedade considerável para Jesus e Maria. Mas foi sempre um menino bom e bem-intencionado. Judá era um pavio de fogo. Possuía o mais alto dos ideais, mas tinha um temperamento pouco estável. Apresentava toda a determinação e o dinamismo da sua mãe, e mais ainda, mas faltava-lhe o senso da proporção e a discrição dela.

Míriam era uma filha bem equilibrada e de cabeça sensata, com uma apreciação aguçada das coisas nobres e espirituais. Marta era lenta de pensamento e ação, mas uma criança muito confiável e eficiente. O bebê Rute era o raio de sol da casa; embora impensada para falar, era muito sincera de coração. Ela simplesmente adorava o seu irmão maior e pai. Mas eles não a estragaram com mimos. Ela era uma criança linda, mas não tão formosa quanto Míriam, que era a beleza da família, se não da cidade.

Com o passar do tempo, Jesus fez bastante para liberalizar e modificar a educação e as práticas da família, no que dizia respeito à observação do sábado e em muitos outros aspectos da religião e, para todas essas mudanças, Maria deu um consentimento sincero. Jesus tinha-se transformado, nessa época, no chefe inquestionável da casa.
Nesse ano, Judá começou a ir à escola e foi necessário que Jesus vendesse a sua harpa, com o intuito de fazer frente a essas despesas. E assim desapareceu o último dos seus prazeres de recreação. Ele gostava muito de tocar harpa quando estava com a mente cansada e o corpo exaurido, mas consolou-se com o pensamento de que ao menos a harpa estaria a salvo de ser apreendida pelo coletor de impostos.

5. REBECA, A FILHA DE ESDRAS

Embora Jesus fosse pobre, o seu nível social em Nazaré não era de forma nenhuma prejudicado. Ele era um dos jovens mais destacados da cidade e era altamente considerado pela maioria das moças. Posto que Jesus era um espécime tão esplêndido de robustez física e de desenvolvimento intelectual masculino, e, considerando a sua reputação de líder espiritual, não era de se estranhar que Rebeca, a filha mais velha de Esdras, o abastado mercador e comerciante de Nazaré, descobrisse que, aos poucos, estava apaixonando-se por esse filho de José. Inicialmente ela confessou o seu afeto a Míriam, irmã de Jesus, e Míriam por sua vez falou sobre isso com a sua mãe. Maria ficou bastante transtornada. Estaria a ponto de perder o seu filho, logo agora que se tornara o chefe indispensável da família? Será que os problemas nunca acabariam? O que mais poderia acontecer? E, então, ela parou para pensar sobre o efeito que o casamento teria na carreira futura de Jesus; lembrava-se, não frequentemente, mas algumas vezes pelo menos, do fato de Jesus ser um “filho prometido”. Depois que ela e Míriam conversaram sobre essa questão, decidiram fazer um esforço para acabar com aquilo, antes que Jesus soubesse; e foram diretamente a Rebeca, colocando toda a história diante dela, dizendo honestamente sobre a crença que tinham de que Jesus era um filho do destino; de que ele deveria tornar-se um grande líder religioso, talvez o Messias.

Rebeca escutou bastante atenta; e ficara fascinada com o que lhe diziam e, mais do que nunca, determinada a tentar a sorte com esse homem da sua escolha e compartilhar com ele a sua carreira de liderança. Ela argumentou (para si própria) que um homem, por ser assim, necessitaria, ainda mais, de uma esposa fiel e eficiente. Ela interpretou os esforços que Maria fizera para dissuadi-la como uma reação natural pelo medo de perder o único apoio e o chefe da família; mas, sabendo que o seu pai aprovava a sua atração pelo filho do carpinteiro, ela reconheceu que era justo que ele tivesse a satisfação de poder suprir a família com uma renda suficiente para compensar plenamente a perda dos ganhos de Jesus. Quando o seu pai concordou com esse plano, Rebeca teve outras conversas com Maria e Míriam e, quando viu que não conseguiria o apoio delas, ela tomou coragem para ir diretamente a Jesus. E o fez, com a cooperação do seu pai, que convidou Jesus à sua casa para a comemoração do décimo sétimo aniversário de Rebeca.

Jesus ouviu atenta e compassivamente a exposição daquelas coisas, feita primeiro pelo pai, e depois pela própria Rebeca. Ele respondeu gentilmente que, com efeito, nenhuma soma de dinheiro poderia tomar o lugar da sua obrigação de criar pessoalmente a família do seu pai, de “cumprir o mais sagrado de todos os encargos humanos – a lealdade à sua própria carne e sangue”. O pai de Rebeca ficou profundamente tocado pela devoção de Jesus à família e retirou-se da conversa. A única observação que fez a Maria, a sua esposa, foi: “Não podemos tê-lo como filho; ele é nobre demais para nós”.

E então começou aquela conversa extraordinária com Rebeca. Até então, na sua vida, Jesus fizera pouca distinção na sua relação com os meninos e as meninas, com os jovens e as moças. Tinha estado muito ocupado com a premência das questões terrenas e práticas, e a sua mente estivera intrigada demais com a contemplação da sua carreira eventual “de cuidar dos assuntos do seu Pai”, para que ele pudesse chegar a considerar com seriedade a consumação de um amor pessoal, em um casamento humano. Agora, no entanto, ele estava frente a frente com mais um desses problemas com os quais todos os seres humanos comuns têm de confrontar-se e optar. De fato foi ele “testado, sob todos os aspectos, como vós o sois”.

Depois de escutar com atenção, ele agradeceu sinceramente a Rebeca, pela admiração que exprimira, acrescentando, “isso irá alegrar-me e confortar-me por todos os dias da minha vida”. E explicou que não era livre para, com qualquer mulher, ingressar em relações, a não ser aquelas de uma consideração de irmandade simples e de pura amizade. Deixou claro que o seu primeiro e mais importante dever era criar a família do seu pai, que ele não poderia considerar o casamento até que o seu dever estivesse cumprido; e, então, acrescentou: “Se sou um filho predestinado, não devo assumir obrigações que durem toda uma vida; até o momento em que o meu destino se torne manifestado”.

Rebeca ficou com o coração partido. Não aceitou ser consolada e insistiu com o seu pai para que se mudassem de Nazaré, até que finalmente ele consentiu em mudar-se para Séforis. Nos anos que se seguiram, aos muitos homens que queriam a sua mão em casamento, Rebeca não tinha senão uma resposta. Vivia para um só propósito: o de aguardar a hora em que aquele, que para ela era o maior homem que jamais vivera, começasse a sua carreira como um mestre da verdade viva. E ela seguiu-o com devoção durante os seus anos memoráveis de trabalho público, estando presente (sem que Jesus a percebesse) naquele dia em que ele chegou triunfalmente em Jerusalém; e ela permaneceu “entre as outras mulheres”, ao lado de Maria, naquela tarde fatídica e trágica em que o Filho do Homem estava na cruz, pois, para ela, bem como para mundos incontáveis no alto, ele era “o único digno do amor total e o maior entre dez mil”.

6. O SEU VIGÉSIMO ANO (14 d.C.)

A história do amor de Rebeca por Jesus foi sussurrada em toda a Nazaré e, mais tarde, em Cafarnaum, de um modo tal que, se bem que nos anos que viriam muitas mulheres tivessem amado a Jesus, como os homens o amaram, ele não teria novamente que rejeitar a oferta pessoal da devoção de outra mulher de bem. Dessa época em diante o afeto humano por Jesus pertencia mais à natureza da adoração e da consideração cultuadora. Tanto homens quanto mulheres o amavam com devoção e pelo que ele era, não com qualquer intenção de satisfação própria nem com desejo de posse por afeto. Mas, durante muitos anos, sempre que a história da personalidade humana de Jesus era contada, a devoção de Rebeca seria relatada.

Míriam, sabendo plenamente sobre o caso de Rebeca e sabendo que o seu irmão havia renunciado, mesmo, ao amor de uma bela moça (ainda que nem imaginando o que seria a sua carreira futura como predestinado), veio a idealizar Jesus e a amá-lo com a afeição tocante e profunda que se dedica a um pai bem como a um irmão.
Ainda que não tivesse condições para tal, Jesus teve um estranho desejo de ir a Jerusalém para a Páscoa. A sua mãe, sabendo da sua recente experiência com Rebeca, sabiamente o encorajou a fazer tal viagem. Ele não estava consciente disso, mas o que mais queria era uma oportunidade de conversar com Lázaro e de estar com Marta e Maria. Depois da sua própria família, era a esses três que ele mais amava.

Ao fazer essa viagem a Jerusalém, ele foi pelo caminho de Meguido, Antipátris e Lida, em parte seguindo pela mesma rota pela qual tinha passado quando, do seu retorno do Egito, havia sido trazido de volta a Nazaré. Gastou quatro dias para ir à Páscoa e refletiu bastante sobre os acontecimentos passados, que tinham tido lugar em Meguido e nos seus arredores, campo de batalha internacional da Palestina.

Jesus passou por Jerusalém, parando apenas para olhar o templo e as multidões de visitantes. Teve uma aversão estranha e crescente por esse templo construído por Herodes, com o seu sacerdócio designado politicamente. Ele queria mais que tudo ver Lázaro, Marta e Maria. Lázaro tinha a mesma idade de Jesus e agora era o chefe da casa; na época dessa visita, a mãe de Lázaro havia morrido também. Marta era um ano e pouco mais velha que Jesus, enquanto Maria era dois anos mais nova. E Jesus era o ideal, idolatrado por todos os três.

Nessa visita ocorreu uma dessas manifestações periódicas de rebelião contra a tradição – a expressão do ressentimento por aquelas práticas cerimoniais que Jesus considerava representarem mal o seu Pai do céu. Não sabendo que Jesus estava vindo, Lázaro tinha arranjado para celebrar a Páscoa com amigos, em uma aldeia vizinha, na estrada de Jericó. Jesus então propôs que celebrassem a festa onde eles estavam, na casa de Lázaro. “Mas”, disse Lázaro, “não temos um cordeiro pascal”. E então Jesus começou uma dissertação prolongada e convincente, para mostrar que o Pai no céu não estava verdadeiramente interessado nesses rituais infantis e sem sentido. Depois de uma prece solene e fervorosa, eles levantaram-se e Jesus disse: “Deixai que as mentes pueris e obscuras do meu povo sirvam ao seu Deus como Moisés mandava; é melhor que o façam, mas nós, que vimos a luz da vida, cessemos de aproximar-nos do nosso Pai pelo caminho escuro da morte. Sejamos livres no conhecimento da verdade do amor eterno do nosso Pai eterno”.

Naquele anoitecer, à hora do crepúsculo, esses quatro assentaram-se e partilharam a primeira festa da Páscoa jamais celebrada por devotos judeus sem o cordeiro pascal. O pão sem levedo e o vinho tinham sido preparados para essa Páscoa e, esses símbolos aos quais Jesus chamou de “o pão da vida” e “a água da vida”, ele os serviu aos seus companheiros e eles comeram, adequando-se solenemente aos ensinamentos que acabavam de ser ministrados. Jesus passou então a ter o hábito de fazer esse ritual de sacramento quando, depois disso, ele fazia visitas a Betânia. Quando voltou para a casa, ele contou tudo isso à sua mãe. Ela ficou chocada, inicialmente, mas gradualmente conseguiu compartilhar daquele ponto de vista; entretanto, ficou muito aliviada quando Jesus assegurou-lhe que não tinha a intenção de introduzir essa nova idéia da Páscoa na própria família. Em casa, com as crianças, ele continuou, ano após ano, a comer durante a Páscoa “segundo a lei de Moisés”.

Foi durante esse ano que Maria teve uma longa conversa com Jesus sobre o casamento. Ela perguntou-lhe francamente se ele se casaria, caso ficasse livre das suas responsabilidades com a família. Jesus explicou a ela que, desde que o dever imediato proibia o seu casamento, ele não tinha pensado muito nisso. Ele expressara-se como se duvidasse de que jamais fosse chegar ao estado de ter de casar-se; e disse que essas coisas deviam esperar “a minha hora”, o momento em que “o trabalho do meu Pai deve começar”. Tendo já estabelecido na sua mente que não seria pai de crianças na carne, ele tinha pensado pouquíssimo sobre essa questão do casamento humano.

Nesse ano, ele retomou a tarefa de fundir mais ainda as suas naturezas mortal e divina, em uma individualidade humana única e efetiva. E continuou a crescer em estatura moral e em compreensão espiritual.

Se bem que todas as propriedades de Nazaré (exceto a casa deles) tivessem sido já liquidadas, nesse ano eles receberam uma pequena ajuda financeira, da venda de uma pequena participação em uma propriedade em Cafarnaum. Essa era a última de todas as propriedades imobiliárias de José. Esse negócio imobiliário em Cafarnaum foi feito com um construtor de barcos de nome Zebedeu.

José graduou-se na escola da sinagoga, nesse ano, e preparou-se para começar a trabalhar na pequena bancada na oficina de carpinteiro da casa. Apesar de as propriedades do pai deles haverem acabado, surgia a perspectiva de poderem lutar com êxito contra a pobreza, já que três deles agora trabalhavam regularmente.

Jesus rapidamente estava tornando-se um homem feito, não apenas um jovem, mas um adulto. Aprendeu a suportar a responsabilidade; e sabia já como perseverar na presença de decepções. Ele comportava-se bravamente, quando os seus planos eram contrariados e os seus propósitos temporariamente derrotados. Aprendeu como ser equânime e justo, mesmo, diante da injustiça. Ele estava aprendendo como ajustar os seus ideais de vida espiritual às demandas práticas da existência terrena. Estava aprendendo como planejar a realização de uma meta mais elevada e distante, de idealismo, enquanto labutava honestamente para a realização de um fim de alcance mais imediato, por necessidade. Estava adquirindo com desenvoltura a arte de ajustar as suas aspirações às demandas banais da condição humana. Já praticamente conquistara a mestria da técnica de utilizar a energia do impulso espiritual para fazer girar o mecanismo da realização material. Estava lentamente aprendendo como viver a vida celeste, enquanto continuava a sua existência terrena. Mais e mais ele acolhe o direcionamento último do seu Pai celeste, enquanto assume o papel paterno de guiar e direcionar as crianças da sua família terrena. Tornava-se experiente em arrancar a vitória do âmago da própria mandíbula da derrota; estava aprendendo como transformar as dificuldades do tempo nos triunfos da eternidade.

E assim, com o passar dos anos, este jovem de Nazaré continuava experienciando a vida como é vivida na carne mortal, nos mundos do tempo e do espaço. Ele viveu uma vida plena, representativa e repleta em Urântia. E deixou este mundo já amadurecido e tendo a experiência pela qual as suas criaturas passam durante os curtos mas árduos anos da primeira vida delas, a vida na carne. E toda esta experiência humana é uma posse eterna do Soberano do Universo. Ele é o nosso irmão compreensivo, o amigo compassivo, o soberano experiente e o pai misericordioso.

Quando criança, ele acumulara um vasto corpo de conhecimentos; enquanto jovem, ele ordenou, classificou e correlacionou essas informações; e agora, como homem deste reino, ele começa a organizar essas posições mentais, preparatórias que são, para utilizá-las nos seus ensinamentos posteriores, na ministração e no serviço em prol dos seus irmãos mortais deste mundo e de todas as outras esferas habitadas do universo inteiro de Nébadon.

Nascido no mundo como um menino do reino, ele viveu a sua infância e passou pelos estágios sucessivos da adolescência e da juventude; e agora ele está no umbral da plena idade madura, enriquecido com a experiência de uma vida de homem, repleta do entendimento da natureza humana, e plena de compaixão pelas fragilidades dessa natureza. Ele está transformando-se em um especialista na arte divina de revelar o seu Pai do Paraíso, para todas as idades e estágios de criaturas mortais.

E agora, como um homem plenamente desenvolvido – um adulto deste reino –, ele prepara-se para continuar a sua missão suprema de revelar Deus aos homens e de conduzir os homens a Deus.

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Serie - (9) Vida e os ensinamentos de jesus - O inicio da vida adulta de Jesus

Serie - (9) Vida e os ensinamentos de jesus - O inicio da vida adulta de Jesus

Esta série foi extraída do Livro de Urântia. Os 77 capítulos, mais de 700 páginas, que ocupam um terço do livro, dão dia a dia, toda a vida de Jesus Cristo desde sua infância. Dão 16 vezes mais informações sobre a vida e os ensinamentos de Jesus do que a Bíblia. É o relato mais espiritual sobre Jesus até hoje escrito.



O INÍCIO DA VIDA ADULTA DE JESUS

Quando Jesus de Nazaré entrou nos primeiros anos da sua vida de adulto, ele tinha vivido e continuava a viver uma vida humana normal e comum na Terra. Jesus veio a este mundo como as outras crianças vêm; e em nada interferiu na escolha dos seus pais. Ele escolheu este mundo, em particular, como o planeta onde efetuar a sua sétima e última auto-outorga, a sua encarnação à semelhança da carne mortal; mas, à parte isso, ele veio ao mundo de um modo natural, crescendo como uma criança do reino e lutando com as vicissitudes do seu meio ambiente exatamente como o fazem os outros mortais neste, e em mundos semelhantes.

Tenhais sempre em mente que a auto-outorga de Michael, em Urântia, teve duplo propósito:

1. Alcançar a mestria, por meio da experiência, que advém de viver plenamente a vida de uma criatura humana na carne mortal: a complementação final da sua soberania em Nébadon.

2. A revelação do Pai Universal aos habitantes mortais, dos mundos do tempo e do espaço, para conduzir mais efetivamente esses mesmos mortais a uma compreensão melhor do Pai Universal.

Todos os outros benefícios para as criaturas e as vantagens para o universo foram incidentais e secundários, em relação a esses dois propósitos maiores da auto-outorga mortal.

1. O VIGÉSIMO PRIMEIRO ANO (15 d.C.)


Ao atingir a idade adulta, Jesus dispôs-se a realizar, com um empenho honesto e com a mais plena consciência de si, a tarefa de abranger toda a experiência, conquistando a mestria do conhecimento da forma de vida mais baixa das suas criaturas inteligentes; e por meio desse conhecimento final, conquistar o direito pleno de governar irrestritamente o universo criado por ele próprio. Dedicou-se a essa tarefa estupenda com a compreensão integral da sua própria natureza dual. E, sendo assim, ele tinha já combinado efetivamente essas duas naturezas em uma única – Jesus de Nazaré.

Joshua ben José sabia muito bem que era um homem, um homem mortal, nascido de uma mulher. Isso é mostrado pela escolha do seu primeiro título, o Filho do Homem. Ele participava verdadeiramente da carne e do sangue e, mesmo agora, que preside com a autoridade da soberania aos destinos de um universo, ele continua conservando, entre os inúmeros e bem merecidos títulos que ganhou, o de Filho do Homem. É literalmente verdade que a Palavra criativa – o Filho Criador Michael – do Pai Universal foi “feita carne e habitou, como um homem, o reino em Urântia”. Ele trabalhou, cansou-se, descansou e dormiu. Teve fome e satisfez tais anseios com comida; teve sede e com água saciou a sua sede. Experimentou toda a gama de emoções e de sentimentos humanos; ele foi “testado em todas as coisas, do mesmo modo que vós o sois”; e sofreu e morreu.

Ele obteve o conhecimento, ganhou a experiência e os combinou com a sabedoria, exatamente como o fazem os outros mortais do reino. Até depois do seu batismo, Jesus não se valeu de nenhum poder supranatural. Ele não fez uso de nenhuma intervenção que não fosse parte do seu dom humano como filho de José e de Maria.

Quanto aos atributos da sua existência pré-humana, ele despojou-se deles. Antes do começo do seu trabalho público, o seu conhecimento dos homens e dos acontecimentos esteve inteiramente limitado à sua própria experiência. Ele foi, na verdade, um homem entre os homens.

Para sempre e gloriosamente é verdade que: “Temos, a governar-nos, um alto soberano que pode ser tocado pelo sentimento das nossas fraquezas. Temos um Soberano que foi testado, sob todos os pontos de vista e tentado, como nós somos, e que permaneceu sem pecado”. E desde que ele próprio sofreu, sendo testado e provado, ele é profusamente capaz de compreender e, pois, de ministrar àqueles que estão confusos e aflitos.

O carpinteiro de Nazaré agora compreendia integralmente o trabalho que tinha diante de si, mas escolheu viver a sua vida humana seguindo a sua fluência natural. E em algumas dessas questões ele é de fato um exemplo para as suas criaturas mortais, como está mesmo escrito: “Deixai que esta mente esteja em vós, a mesma que esteve também em Cristo Jesus, que, tendo a natureza de Deus, não achava estranho ser igual a Deus. Mas ele arrogou pouca importância para si próprio e, tomando a forma de uma criatura, nasceu à semelhança dos homens. E estando, assim, na forma de um homem, soube ser humilde e tornar-se obediente até à morte, até mesmo à morte na cruz”.

Ele viveu a sua vida mortal como todos os outros da família humana podem viver as suas vidas, “ele que, nos dias da sua encarnação, tão frequentemente ofereceu preces e súplicas, até mesmo com uma grande emoção e com lágrimas, Àquele que é capaz de salvar de todo o mal, e as suas preces foram eficientes porque ele acreditou”. E por isso foi mister que ele se fizesse igual, sob todos os aspectos, aos seus irmãos, para que se tornasse um soberano misericordioso e compreensivo para com eles.

Da sua natureza humana ele nunca esteve em dúvida; era uma evidência em si mesma e estava sempre presente na sua consciência. Mas da sua natureza divina havia sempre espaço para a dúvida e a reflexão, ou pelo menos isso foi verdadeiro até o evento do seu batismo. A autocompreensão da divindade foi lenta e, do ponto de vista humano, uma revelação evolucionária natural. Essa revelação e a autopercepção da divindade começaram em Jerusalém quando ele ainda não tinha completado treze anos de idade, com a primeira ocorrência supranatural da sua existência humana; e essa experiência efetiva, de compreender que a sua natureza era divina, foi completada na época da sua segunda experiência supranatural enquanto ainda encarnado, com o episódio que acompanhou o seu batismo no Jordão, feito por João, evento este que marcou o começo da sua carreira pública de ministração e ensinamentos.

Entre essas duas visitações celestes, uma no seu décimo terceiro ano de vida e a outra no seu batismo, nada ocorreu de supranatural nem de supra-humano na vida deste Filho Criador encarnado. Apesar disso, o menino de Belém, o adolescente, o jovem e o homem de Nazaré, eram, na realidade, o Criador, encarnado, de um universo; mas ele não usou nada do seu poder, nem por uma vez sequer, nem valeu-se da ajuda ou do guiamento das personalidades celestes, excetuando-se a do seu serafim guardião, durante a sua vida de humano até o dia em que foi batizado por João. E nós, que atestamos isso, sabemos do que estamos falando.

E ainda, durante todos esses anos da sua vida na carne, ele foi verdadeiramente divino. Era de fato um Filho Criador do Pai do Paraíso. Quando abraçou a sua carreira pública, depois de ter completado tecnicamente a sua experiência puramente mortal, para a conquista da soberania, ele não hesitou em admitir publicamente que era o Filho de Deus. Ele não hesitou em declarar: “Eu sou Alfa e Ômega, o começo e o fim, o primeiro e o último”. Ele não protestou, anos mais tarde, quando foi chamado de Senhor da Glória, de Soberano de um Universo, de Senhor Deus de toda a criação, de Santo de Israel, de o Senhor de tudo, de nosso Senhor e nosso Deus, de Deus conosco, de Aquele que tem um nome acima de todos os nomes e de todos os mundos, de a Onipotência de um universo, de a Mente Universal dessa criação, de Aquele em quem se escondem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, de plenitude Daquele que preenche todas as coisas, de o Verbo eterno do Deus eterno, de Aquele que foi antes de todas as coisas e em quem todas as coisas consistem, de Criador dos céus e da Terra, de Sustentador de um universo, de Juiz de toda a Terra, de Doador da vida eterna, de o Verdadeiro Pastor, de Libertador dos mundos e de Condutor da nossa salvação.

Ele nunca fez objeção a nenhum desses títulos, quando eles foram aplicados a ele, depois que emergiu da sua vida puramente humana, nos anos de adulto, da sua autoconsciência, do seu ministério de divindade para com a humanidade, de humanidade e na humanidade, neste mundo e para com todos os outros mundos. Jesus fez objeção quanto a um único nome: Quando certa vez ele foi chamado de Emanuel, ele respondeu simplesmente: “Não, não eu, este é o meu irmão mais velho”.

Sempre, mesmo depois do seu crescimento para uma vida mais ampla na Terra, Jesus permaneceu humildemente submisso à vontade do Pai no céu.

Depois do seu batismo ele não viu inconveniente em permitir, aos que acreditavam nele e aos seus seguidores agradecidos, que o adorassem. Enquanto ele lutava contra a pobreza e labutava com as próprias mãos para prover a sua família das necessidades da vida, a sua consciência de que era um Filho de Deus estava já crescendo; ele sabia que era o criador dos céus e desta mesma Terra onde se encontrava agora vivendo a sua existência humana. E as hostes de seres celestes que o observavam, em todo o vasto universo, do mesmo modo, sabiam que este homem de Nazaré era o seu amado Soberano e Pai-Criador. Uma expectativa profunda invadiu o universo de Nébadon durante esses anos; todos os olhos celestes estavam focalizados continuamente em Urântia – e na Palestina.

Nesse mesmo ano, Jesus foi a Jerusalém, com José, para celebrar a Páscoa. Tendo levado Tiago ao templo para a consagração, ele considerou um dever seu também levar José. Jesus nunca demonstrou nenhum grau de parcialidade ao lidar com a sua família. Foi com José a Jerusalém pela estrada usual do vale do Jordão, mas retornou a Nazaré pelo caminho do leste do Jordão, que passava por Amatus. Indo pelo Jordão abaixo, Jesus narrou a história dos judeus a José e, durante a viagem de volta, contou-lhe sobre as experiências das legendárias tribos de Rubem, Gad, e Gilead, que tradicionalmente tinham habitado as regiões a leste do rio.

José fez muitas perguntas sugestivas a Jesus a respeito da missão da sua vida, mas à maioria delas Jesus responderia apenas: “Minha hora ainda não chegou”. Contudo, nessas conversas familiares, muitas palavras escapavam e delas José relembraria durante os acontecimentos comoventes dos anos seguintes. Jesus, junto com José, passou essa Páscoa com os seus três amigos na Betânia, como era o seu costume quando estava em Jerusalém para tais festas comemorativas.

2. O VIGÉSIMO SEGUNDO ANO (16 d.C.)


Esse foi um dos vários anos durante os quais os irmãos e as irmãs de Jesus estavam enfrentando as provações e as atribulações comuns aos problemas e reajustamentos da adolescência. Agora, Jesus tinha irmãos e irmãs cujas idades variavam entre sete e dezoito anos e ele mantinha-se ocupado ajudando-os a ajustarem-se ao novo despertar das suas vidas intelectuais e emocionais. Ele tinha, assim, que enfrentar os problemas da adolescência à medida que se tornavam manifestos nas vidas dos seus irmãos e irmãs mais jovens.

Nesse ano, Simão graduou-se na escola e começou a trabalhar com Jacó, o assentador de pedras, antigo companheiro de jogos de Jesus e defensor sempre alerta dele. Em consequência de várias conversas na família, tinha ficado decidido que não era sábio que todos os rapazes se encaminhassem para a carpintaria. Pensou-se que, se as suas especialidades fossem diversificadas, eles estariam preparados para empreitadas de construir edifícios por inteiro. Além do que, eles não tinham estado todos sempre ocupados, apenas três deles tinham estado trabalhando como carpinteiros em período integral.

Jesus, durante esse ano, continuou os trabalhos de acabamentos de casas e de marchetaria, mas passou a maior parte do seu tempo na loja de reparos, perto do ponto das caravanas. Tiago estava começando a alternar com ele no atendimento da loja. Mais para o fim do ano, quando o trabalho de carpinteiro começou a escassear em Nazaré, Jesus deixou a loja de reparos ao encargo de Tiago, ficando José na bancada da casa, enquanto ele foi para Séforis trabalhar como ferreiro. Trabalhou por seis meses com metais e adquiriu uma habilidade considerável com a bigorna.

Antes de assumir o seu novo emprego em Séforis, Jesus fez uma das suas reuniões periódicas em família e solenemente colocou Tiago, então com um pouco mais do que dezoito anos de idade, como o chefe suplente da família. Ele prometeu ao seu irmão um apoio sincero e a plena cooperação e exigiu de todos os membros da família uma promessa formal de obediência a Tiago. A partir desse dia, Tiago assumiu a plena responsabilidade financeira pela família, sendo que Jesus fazia pagamentos semanais ao seu irmão. Nunca mais Jesus retomou o controle das mãos de Tiago. Enquanto trabalhava em Séforis ele poderia ter ido até a sua casa, todas as noites se necessário, mas permaneceu afastado de propósito, atribuindo isso ao tempo e a outras razões, mas o seu verdadeiro motivo era treinar Tiago e José para enfrentar as responsabilidades da família. Ele havia iniciado o processo lento de desligar-se da sua família. A cada sábado, Jesus retornava a Nazaré e, algumas vezes, durante a semana, quando a ocasião requeria, para observar o trabalho do novo plano e dar conselhos e oferecer sugestões úteis.

Ter vivido boa parte do tempo em Séforis, durante seis meses, proporcionou a Jesus uma nova oportunidade de conhecer melhor o ponto de vista dos gentios. Trabalhou e viveu com os gentios e de todas as maneiras possíveis estudou de perto, e com cuidado, os hábitos de vida e a mente deles.

Os padrões morais dessa aldeia onde morava Herodes Antipas encontravam-se tão abaixo até mesmo daqueles da cidade das caravanas de Nazaré, que, depois de seis meses de permanência em Séforis, Jesus não era avesso à idéia de encontrar uma desculpa para voltar a Nazaré. O grupo para o qual ele trabalhava estava a empreender trabalhos públicos tanto em Séforis quanto na nova cidade de Tiberíades, e Jesus não estava inclinado a ter o que quer que fosse com qualquer espécie de emprego sob a supervisão de Herodes Antipas. E havia ainda outras razões que faziam com que se tornasse prudente, na opinião de Jesus, que ele voltasse a Nazaré. Quando retornou à loja de reparos, ele não reassumiu pessoalmente a direção dos assuntos da família. Trabalhou em associação com Tiago, na loja, e permitiu a ele, tanto quanto possível, continuar a supervisionar a casa. Assim Tiago continuou tranquilamente a gestão dos assuntos do orçamento e da administração da família.

E foi por meio desse plano sábio e cuidadoso que Jesus preparou o caminho para a sua retirada final de uma participação ativa nos assuntos da sua família. Quando Tiago tinha já dois anos de experiência como chefe atuante da família – e dois anos antes que ele (Tiago) se casasse –, José ficou encarregado das economias da casa e a direção geral do lar também lhe foi confiada.

3. O VIGÉSIMO TERCEIRO ANO (17 d.C.)

Nesse ano, a pressão financeira ficou ligeiramente aliviada, pois havia quatro irmãos a trabalhar. Míriam ganhava relativamente bem com a venda do leite e da manteiga; Marta havia-se tornado uma tecelã de muita habilidade. E mais de um terço do preço de compra da loja de reparos tinha sido pago. A situação era tal que Jesus parou de trabalhar por três semanas para levar Simão a Jerusalém, para a Páscoa, e esse foi o período mais longo de que ele desfrutou, afastado do trabalho diário, desde a morte do seu pai.

Eles viajaram para Jerusalém pelo caminho de Decápolis, passando por Pela, Gerasa, Filadélfia, Hesbom e Jericó. E voltaram a Nazaré pela estrada costeira, passando por Lida, Jopa, Cesaréia, contornaram o monte Carmelo até Ptolemais e depois chegaram a Nazaré. Essa viagem permitiu que Jesus conhecesse bastante bem toda a Palestina ao norte do distrito de Jerusalém.

Na Filadélfia, Jesus e Simão conheceram um mercador de Damasco; este se tomou de uma tal amizade pelos dois irmãos de Nazaré, que insistiu com os dois para darem uma parada com ele na sede da sua empresa em Jerusalém. Enquanto Simão participava do serviço no templo, Jesus passou muito do seu tempo conversando sobre assuntos mundiais com esse homem bem educado e viajado. Esse mercador possuía quatro mil camelos de caravana; tinha negócios em todo o mundo romano e agora estava a caminho de Roma. E propôs que Jesus fosse a Damasco para integrar os seus negócios de importação oriental, mas Jesus explicou-lhe que não se sentia no direito de afastar-se tanto da sua família naquele momento. Mas a caminho de casa, ele pensou muito nas cidades distantes e mais ainda nos países longínquos do Extremo-Ocidente e Extremo-Oriente, países sobre os quais os passageiros e os condutores das caravanas tanto lhe haviam contado.

Simão estava muito contente com a sua visita a Jerusalém. Ele havia sido devidamente admitido na comunidade de Israel, durante a consagração pascal dos novos filhos dos mandamentos. Enquanto Simão assistia às cerimônias pascais, Jesus misturava-se às multidões de visitantes e participava de muitas conversas pessoais interessantes com inúmeros prosélitos gentios.

Talvez o mais notável de todos esses contatos tenha sido aquele com um jovem helenista chamado Estevão. Esse jovem visitava Jerusalém pela primeira vez e encontrou Jesus, por acaso, à tarde na quinta-feira da semana da Páscoa. Enquanto passeavam vendo o palácio de Asmônea, Jesus iniciou a conversa casual que resultou em um interesse mútuo e levou a uma conversa de quatro horas sobre o modo de vida e sobre o verdadeiro Deus e a sua adoração. Estevão ficou tremendamente impressionado com o que Jesus dissera; e nunca se esqueceu daquelas palavras dele.

E esse foi o mesmo Estevão que depois se tornou um crente dos ensinamentos de Jesus, e cuja audácia ao pregar esse evangelho dos tempos iniciais resultou em ter sido apedrejado até a morte por judeus irados. Uma parte da audácia extraordinária que Estevão tinha em proclamar a sua visão do novo evangelho era uma consequência direta da sua conversa anterior com Jesus. Mas Estevão, nem de leve, nunca supôs que o galileu com quem ele tinha conversado havia uns quinze anos era a mesma pessoa a quem mais tarde ele proclamaria como o Salvador do mundo, e por quem ele iria morrer em breve, tornando-se assim o primeiro mártir da nova fé cristã que evoluía. Quando Estevão entregou a sua vida como preço pela sua investida contra o templo judeu e as suas práticas tradicionais, um cidadão chamado Saulo, cidadão de Tarso, estava lá. E quando Saulo viu como o grego podia morrer pela sua fé, surgiram no seu coração aquelas emoções que finalmente levaram-no a desposar a causa pela qual Estevão morrera; mais tarde tornou-se ninguém mais do que Paulo, o dinâmico e indômito, o filósofo e talvez fundador único da religião cristã.

No domingo, depois da semana da Páscoa, Simão e Jesus partiram no seu caminho de volta para Nazaré. Simão nunca esqueceu o que Jesus ensinou-lhe nessa viagem. Sempre havia amado Jesus, contudo agora Simão sentia que começava a conhecer o seu irmão-pai. Eles tinham tido muitas conversas de coração para coração à medida que viajavam pelo país e preparavam as próprias refeições à beira do caminho. Eles chegaram em casa na quinta-feira ao meio-dia; e Simão ficou até tarde da noite contando a toda a família as suas experiências.

Maria ficou muito preocupada com o que Simão relatou sobre o fato de que Jesus havia passado a maior parte do seu tempo em Jerusalém “falando com estranhos, especialmente aqueles de países distantes”. A família de Jesus não poderia nunca compreender o seu grande interesse pelo povo, a necessidade que tinha de estar com eles, de aprender sobre o seu modo de vida, e de saber sobre o que andavam pensando.

Mais e mais a família de Nazaré tornava-se absorvida pelos seus problemas imediatos e humanos; e não era frequente que se comentasse sobre a missão futura de Jesus e era muito raro até que ele próprio falasse da sua carreira futura. A sua mãe raramente lembrava-se de que ele era a criança prometida. Ela estava aos poucos desistindo da idéia de que Jesus iria cumprir alguma missão divina na Terra, mas por vezes a sua fé era reavivada quando ela parava para lembrar-se da visitação de Gabriel, antes que a criança nascesse.

4. O EPISÓDIO DE DAMASCO

Os últimos quatro meses desse ano, Jesus os passou em Damasco como hóspede do mercador a quem conhecera na Filadélfia, quando a caminho de Jerusalém. Um representante desse mercador havia procurado Jesus quando estava de passagem por Nazaré e acompanhou-o a Damasco. Esse mercador, judeu em parte, propôs dedicar uma soma extraordinária de dinheiro para o estabelecimento de uma escola de filosofia religiosa em Damasco. Ele planejava criar um centro de ensino que ultrapassaria Alexandria. E propôs que Jesus iniciasse imediatamente uma grande viagem aos centros educacionais do mundo, em preparação para tornar-se o diretor desse novo projeto. Essa foi uma das maiores tentações jamais enfrentadas por Jesus durante a sua carreira puramente humana.

Em breve esse negociante trouxe diante de Jesus um grupo de doze mercadores e banqueiros que concordaram em sustentar a escola recém-projetada. Jesus manifestou um profundo interesse pela escola que estava sendo proposta, ajudou-os a planejar a sua organização, mas sempre expressava o temor de que as suas outras obrigações, não declaradas, mas prioritárias, pudessem impedi-lo de aceitar a direção de uma empresa de tamanha ambição. Aquele homem que queria ser o seu benfeitor era persistente e empregou Jesus na sua casa, sob remuneração, para fazer algumas traduções, enquanto ele, sua esposa, filhos e filhas tentavam convencer Jesus a aceitar a honraria oferecida a ele. Mas Jesus não aceitou. Bem sabia que a sua missão na Terra não devia ser sustentada por instituições de ensino; sabia que não devia obrigar-se, no mínimo que fosse, a ser dirigido pelos “conselhos dos homens” não importando quão bem-intencionados fossem.

Ele que, mesmo depois de demonstrar a sua liderança, tinha sido rejeitado pelos líderes religiosos de Jerusalém, era reconhecido e saudado, como um mestre instrutor, pelos negociantes e banqueiros de Damasco, e tudo isso quando era ainda um carpinteiro obscuro e desconhecido de Nazaré.

Jesus nunca falou sobre esse convite à sua família e, ao final desse ano, já se encontrava de volta a Nazaré, cuidando dos seus deveres diários, como se nunca tivesse sido tentado pelas propostas elogiosas dos seus amigos de Damasco. E também esses homens de Damasco jamais associaram o futuro cidadão de Cafarnaum, que virou a sociedade judaica de cabeça para baixo, ao antigo carpinteiro de Nazaré que havia ousado recusar a honra que as suas riquezas consorciadas poderiam ter-lhe proporcionado.

Jesus, de um modo muito hábil e intencional, conseguiu destacar vários episódios da sua vida de modo que nunca se tornassem, aos olhos do mundo, ligados uns aos outros e tomados como atos de um mesmo indivíduo. Muitas vezes, nos anos seguintes, ele ouviu a descrição dessa mesma história, a de um estranho galileu que declinou a oportunidade de fundar uma escola em Damasco para competir com a de Alexandria.

Um dos propósitos que Jesus tinha em mente, quando buscava isolar certas particularidades da sua experiência terrena, era o de impedir a elaboração de uma carreira tão versátil e espetacular que levasse as gerações seguintes a venerar o Mestre, em vez de observar a verdade que ele tinha vivido e ensinado. Jesus jamais quis edificar um currículo de realizações que atraísse mais atenção do que os seus ensinamentos. Muito cedo ele reconheceu que os seus seguidores seriam tentados a formular uma religião sobre ele, a qual poderia tornar-se uma competidora com o evangelho do Reino que ele tinha a intenção de proclamar ao mundo. E assim sendo, de um modo consistente, ele buscou, durante a sua movimentada carreira, suprimir tudo aquilo que, ele supunha, pudesse ser usado para servir a essa tendência humana natural de exaltar o mestre em lugar de proclamar os seus ensinamentos.

Essa mesma razão explica por que ele permitiu a si próprio ser conhecido por títulos diferentes durante as várias épocas da sua diversificada vida na Terra. E, novamente, ele não queria exercer nenhuma influência indevida sobre a sua família e sobre os outros, para levá-los a acreditar nele, apesar das convicções honestas deles. E sempre se recusou a tirar uma vantagem abusiva ou injusta da mente humana. E não queria que os homens acreditassem nele, a menos que os seus corações fossem sensíveis às realidades espirituais reveladas nos seus ensinamentos.

Ao final desse ano as coisas estavam bastante bem no lar de Nazaré. As crianças cresciam e Maria já se acostumava à ausência de Jesus. Ele continuava a enviar os seus ganhos a Tiago para sustentar a família, retendo apenas uma pequena parte para as suas despesas pessoais imediatas.
À medida que passavam os anos, ficava mais difícil compreender que esse homem era um Filho de Deus na Terra. Ele parecia tornar-se exatamente um indivíduo do reino, apenas mais um homem entre os homens. E foi ordenado pelo Pai no céu que aquela outorga devesse mesmo desenvolver-se desse modo.

5. O VIGÉSIMO QUARTO ANO (18 d.C.)

Esse foi o primeiro ano em que Jesus ficou relativamente livre das responsabilidades da família. Tiago vinha tendo muito êxito em gerir o lar, contando com a ajuda de Jesus com os conselhos e nas finanças.

Na semana seguinte à Páscoa desse ano, um jovem senhor de Alexandria veio a Nazaré a fim de fazer os arranjos para um encontro, mais tarde, ainda naquele ano, entre Jesus e um grupo de judeus de Alexandria, nalgum ponto da costa da Palestina. Essa conversa foi marcada para meados de junho, e Jesus foi até Cesaréia para encontrar cinco proeminentes judeus de Alexandria, os quais lhe suplicavam que se estabelecesse na cidade deles, como um mestre religioso, oferecendo-lhe de início, para induzi-lo a aceitar, a posição de assistente do chazam na sua principal sinagoga.

O porta-voz desse comitê explicou a Jesus que a Alexandria estava destinada a tornar-se a sede da cultura judaica para o mundo inteiro; que a tendência helenista dos assuntos judeus havia virtualmente ultrapassado a escola de pensamento da Babilônia. Eles lembraram a Jesus sobre os nefastos rumores de rebelião em Jerusalém e em toda a Palestina e asseguraram a ele que qualquer levante dos judeus da Palestina seria equivalente a um suicídio nacional, que a mão de ferro de Roma esmagaria a rebelião em três meses; e que Jerusalém seria destruída, o templo demolido e que não seria deixada pedra sobre pedra.

Jesus ouviu tudo o que tinham para dizer, agradeceu-lhes pela sua confiança, e, recusando-se a ir para Alexandria, em essência, eis o que respondeu: “A minha hora ainda não chegou”. Eles ficaram embaraçados com a sua aparente indiferença à honraria que almejavam conferir-lhe. Antes de deixarem Jesus, ofereceram-lhe de presente uma bolsa como sinal da estima dos seus amigos de Alexandria e como compensação pelo tempo e pelas despesas por ter vindo a Cesaréia para conversar com eles. Mas, do mesmo modo, ele não aceitou o dinheiro, dizendo: “A casa de José nunca recebeu esmolas e nós não podemos comer o pão dos outros, enquanto eu tiver braços fortes e os meus irmãos puderem trabalhar”.

Os seus amigos do Egito içaram as velas na direção de casa e, nos anos seguintes, quando ouviam rumores do construtor de barcos de Cafarnaum, que estava criando uma grande agitação na Palestina, poucos deles supuseram que ele era a criança de Belém crescida e o mesmo galileu de comportamento estranho que tinha declinado, de um modo tão pouco cerimonioso, ao convite para tornar-se um grande mestre em Alexandria.

Jesus retornou a Nazaré. O restante desse ano constituiu-se nos seis meses menos movimentados de toda a sua carreira. Ele desfrutou bem dessa pausa temporária, no roteiro usual de problemas a resolver e de dificuldades a suplantar; e nesse período Jesus comungou muito com o seu Pai no céu e fez um progresso imenso na mestria da sua mente humana.

Mas os assuntos humanos, nos mundos do tempo e do espaço, não decorrem sem problemas por muito tempo. Em dezembro, Tiago teve uma conversa particular com Jesus, explicando estar muito afeiçoado a Esta, uma jovem mulher de Nazaré, e que eles gostariam de casar-se, tão logo isso pudesse ser arranjado. E Tiago chamou a atenção para o fato de que José logo teria dezoito anos e que seria uma boa experiência se ele tivesse a oportunidade de servir como chefe da família. Jesus deu o seu consentimento para Tiago casar, dois anos depois, desde que ele tivesse, durante esse meio tempo, treinado adequadamente José para assumir a direção da casa.

E agora as coisas começavam a acontecer – o casamento estava no ar. O êxito de Tiago, em ganhar o consentimento de Jesus para casar, deu coragem a Míriam para abordar o seu irmão-pai a respeito dos seus planos. Jacó, o mais jovem, o assentador de pedras que certa vez se havia autodenominado um campeão em defesa de Jesus, agora associado a Tiago e a José nos negócios, vinha, há muito tempo, procurando ganhar a mão de Míriam em casamento. Depois que Míriam havia colocado os seus planos para Jesus, ele pediu que Jacó viesse até ele para fazer um pedido formal pela mão dela e prometeu dar a sua bênção ao casamento tão logo ela sentisse que Marta se havia tornado competente para assumir os deveres dela como filha mais velha.

Quando Jesus estava em casa, ele continuava a ensinar às tardes na escola, três vezes por semana; lia frequentemente as escrituras na sinagoga aos sábados, visitava a sua mãe, ensinava às crianças e, em geral, conduzia-se como um digno e respeitado cidadão de Nazaré, na comunidade de Israel.

6. O VIGÉSIMO QUINTO ANO (19 d.C.)

Esse ano começou com toda a família de Nazaré em boa saúde e testemunhou o fim dos períodos normais da escola para todas as crianças, com exceção de um certo trabalho que Marta devia fazer junto com Rute.

Jesus era um dos mais robustos e refinados espécimes humanos a aparecer na Terra desde os dias de Adão. O seu desenvolvimento físico era magnífico. A sua mente era ativa, aguda e penetrante – se comparado à mentalidade média dos seus contemporâneos, tinha tido um desenvolvimento de proporções gigantescas – e o seu espírito era de fato humanamente divino.

As finanças da família estavam então nas suas melhores condições, desde a venda das propriedades de José. Os pagamentos finais da loja de reparos, junto às caravanas, haviam sido feitos; eles não deviam nada e, pela primeira vez, durante anos, tinham algum fundo em caixa. Isso sendo verdadeiro, e desde que ele havia levado os seus outros irmãos a Jerusalém, para a primeira cerimônia pascal deles, Jesus decidiu acompanhar Judá (que havia acabado de graduar-se na escola da sinagoga) na sua primeira visita ao templo.

Eles foram a Jerusalém e retornaram pela mesma estrada, a do vale do Jordão, pois Jesus temia ter problemas se levasse o seu jovem irmão a cruzar a Samaria. Já em Nazaré, Judá tinha tido ligeiros problemas várias vezes por causa da sua disposição irrefletida, que se somava aos seus fortes sentimentos patrióticos.

Eles chegaram em Jerusalém no devido tempo e estavam a caminho da sua primeira visita ao templo, cuja visão foi suficiente para emocionar e entusiasmar Judá, até o fundo da sua alma; e foi aí que eles encontraram Lázaro da Betânia. Enquanto Jesus falava com Lázaro e procurava arranjar uma celebração conjunta da Páscoa, Judá deu início a uma grande encrenca para todos eles. Bem perto de onde se encontravam estava um guarda romano que fez algum comentário impróprio a respeito de uma garota judia que passava. Judá incandesceu-se em uma indignação feroz e não hesitou em expressar o seu ressentimento, por aquele impropério, diretamente ao soldado e de modo que ele escutasse. Ora, os legionários romanos eram muito sensíveis a qualquer coisa que beirasse o desrespeito judeu; e, assim, prontamente o guarda prendeu Judá. Isso foi demais para o jovem patriota e, antes que Jesus pudesse preveni-lo com um olhar de advertência, ele havia já dado vazão a uma denúncia volúvel de sentimentos anti-romanos armazenados, todos os quais só fizeram piorar a situação. Com Jesus a seu lado, Judá foi levado imediatamente para a prisão militar.

Jesus tentou obter uma audiência imediata para Judá ou conseguir a sua libertação em tempo para a celebração da Páscoa, naquela noite, mas fracassou nessas tentativas. Já que no dia seguinte haveria uma “santa assembléia” em Jerusalém, nem mesmo os romanos se arriscariam a ouvir acusações contra um judeu. E, desse modo, Judá permaneceu no confinamento até a manhã do segundo dia depois da sua prisão, e Jesus ficou na prisão com ele. Eles não estiveram presentes no templo para a cerimônia da recepção dos filhos da lei na cidadania plena de Israel. Judá só passou por essa cerimônia formal depois de muitos anos, quando estivera perto de Jerusalém, em uma Páscoa, fazendo um trabalho de propaganda dos zelotes, a organização patriótica à qual ele pertencia e na qual ele era bastante ativo.

Na manhã seguinte ao segundo dia em que estiveram presos, Jesus compareceu diante do magistrado militar em defesa de Judá. Por meio de um pedido de desculpas, pela juventude do seu irmão, e por meio de esclarecimentos complementares judiciosos, referindo-se à natureza provocativa do episódio que tinha levado à prisão do seu irmão, Jesus conduziu o caso de tal modo que o magistrado expressou a opinião de que o jovem judeu poderia ter tido alguma desculpa possível para a sua explosão de violência. Depois de advertir Judá a não se permitir novamente ser culpado de tal temeridade, disse a Jesus ao dispensá-los: “É melhor manter os seus olhos no jovem; ele é capaz de atrair muita confusão para todos vós”. E o juiz romano falava a verdade. Judá causou muitos aborrecimentos para Jesus; e estes eram sempre problemas da mesma natureza – conflitos com as autoridades civis, por causa das suas explosões impensadas e pouco sábias de patriotismo.

Jesus e Judá foram até a Betânia, para passar a noite; e explicaram por que eles tinham deixado de cumprir o compromisso da ceia da Páscoa, partindo na manhã seguinte para Nazaré. Jesus não contou à família sobre o aprisionamento do seu jovem irmão em Jerusalém, mas ele teve uma longa conversa com Judá sobre esse episódio, umas três semanas depois de retornarem. Depois dessa conversa com Jesus, o próprio Judá contou o acontecido à família. Ele nunca se esqueceu da paciência e da indulgência que o seu irmão-pai manifestou durante toda essa experiência difícil.
Essa foi a última Páscoa que Jesus passou com um membro da sua própria família. O Filho do Homem distanciava-se cada vez mais da sua própria carne e sangue.

Nesse ano as suas temporadas de meditação profunda foram muitas vezes interrompidas por Rute e os seus companheiros de brincadeiras. E sempre Jesus estava disposto a adiar a contemplação do seu trabalho futuro, para o mundo e o universo, a fim de compartilhar da alegria infantil e da felicidade da juventude daquelas crianças, que nunca se cansavam de ouvir Jesus contar sobre as experiências das suas várias viagens a Jerusalém. Também gostavam muito das suas histórias sobre os animais e a natureza.

As crianças eram sempre bem-vindas à loja de reparos. Jesus mantinha areia, blocos de madeira e calhaus de pedras ao lado da loja, e as crianças ficavam ali se divertindo. Quando se cansavam das brincadeiras, os mais intrépidos iam dar uma olhada dentro do ateliê e, se o dono não estivesse muito ocupado, eles ousavam entrar e dizer: “Tio Joshua, sai e conte-nos uma grande história”. Então eles o levavam para fora, puxando-o pelas mãos até que ele se assentasse na pedra favorita, perto da esquina da loja, com as crianças no chão, em um semicírculo diante dele. E como os pequeninos gostavam do seu tio Joshua! Eles estavam aprendendo a rir, e a rir de coração. Era costume, de um ou dois dos menores, subirem nos seus joelhos e assentarem-se lá, olhando maravilhados para as suas feições expressivas enquanto ele contava as suas histórias. As crianças amavam Jesus; e Jesus amava as crianças.

Era difícil para os seus amigos compreender o alcance das suas atividades intelectuais. Como podia tão súbita e tão completamente passar de uma profunda discussão, sobre política, filosofia ou religião, para as brincadeiras leves e alegres com essas crianças de cinco a dez anos de idade? Como os seus próprios irmãos e irmãs haviam crescido, ele dispunha de mais tempo para o lazer e, antes que viessem os netos, ele dava muita atenção a esses pequeninos. No entanto, ele não viveu na Terra um tempo suficiente para desfrutar dos netos.

7. O VIGÉSIMO SEXTO ANO (20 d.C.)


No começo desse ano, Jesus de Nazaré tornou-se profundamente consciente de que possuía um poder potencial muito vasto. Mas estava, do mesmo modo, plenamente convencido de que esse poder não devia ser utilizado pela sua personalidade como Filho do Homem, ao menos não até que a sua hora chegasse.

Nessa época Jesus falava pouco, mas pensava muito, sobre a relação com o seu Pai no céu. E a conclusão de todo esse pensar foi expressa uma vez na sua oração no topo da montanha, quando ele disse: A despeito de quem eu seja e do poder que possa ou não exercer, eu tenho sempre sido, e sempre serei, submisso à vontade do meu Pai do Paraíso”. E ainda, quando esse homem caminhava por Nazaré indo e vindo do seu trabalho, era literalmente verdadeiro – naquilo que concernia a todo um vasto universo – que “nele estavam guardados todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”.

Durante todo esse ano, os assuntos da família correram tranquilamente, exceto no que se referia a Judá. Durante anos Tiago teve problemas com o mais jovem dos seus irmãos, que não estava inclinado a estabelecer-se para trabalhar e em quem não se podia confiar para participar das despesas da casa. Conquanto vivesse em casa, ele não estava consciente de que devia ganhar a sua parte para a manutenção da família.

Jesus era um homem de paz e, de tempos em tempos, ficava embaraçado com as explosões beligerantes e com os inúmeros rompantes patrióticos de Judá. Tiago e José eram a favor de expulsá-lo, mas Jesus não consentiria. Quando a paciência deles chegava aos limites, Jesus apenas aconselhava: “Sede pacientes. Sede sábios nos vossos conselhos e eloquentes nas vossas vidas; que o vosso irmão mais jovem possa primeiro conhecer o melhor meio, e então que seja levado a seguir-vos”. O conselho sábio e afetuoso de Jesus impedia qualquer rompimento na família; eles permaneciam juntos. Mas Judá só serenou os seus sentidos depois do seu casamento.

Maria raramente falava da futura missão de Jesus. Sempre que se fazia referência a essa questão, Jesus apenas respondia: “Minha hora ainda não chegou”. Jesus tinha quase completado a difícil tarefa de desacostumar a sua família da dependência da presença imediata da sua personalidade. E estava preparando-os rapidamente para o dia em que iria deixar a sua casa de Nazaré, de uma forma segura, para dar início a uma atividade mais intensa como um prelúdio para a sua ministração real aos homens.

Vós nunca deveis perder de vista o fato de que a parte primordial da missão de Jesus, na sua sétima auto-outorga, deveria ser a aquisição da experiência enquanto criatura, para a conquista da soberania de Nébadon. E ao recolher essa experiência ele também faria a revelação suprema do Pai do Paraíso a Urântia e a todo o seu universo local. Em acréscimo a esses propósitos, ele também empreendeu a tarefa de desemaranhar os complicados assuntos deste planeta, no que se relacionavam à rebelião de Lúcifer.

Nesse ano Jesus desfrutou de um tempo de lazer maior do que o de costume, e dedicou muito da sua folga para treinar Tiago a gerir a loja de reparos, e José na direção dos assuntos de casa. Maria percebeu que ele estava arranjando tudo para deixá-los. Deixá-los para ir aonde? Para fazer o quê? Ela tinha já abandonado o pensamento de que Jesus era o Messias. E não conseguia compreendê-lo, simplesmente não podia alcançar nem penetrar o mistério do seu filho primogênito.

Jesus passou um bom tempo, durante esse ano, individualmente com cada um dos membros da sua família. Ele os levaria para passeios longos e frequentes à montanha e ao campo. Antes da colheita, levou Judá ao sul de Nazaré, até a casa de um tio fazendeiro, mas Judá não permaneceu muito tempo ali, depois da colheita. Ele fugiu, e Simão encontrou-o mais tarde com os pescadores no lago. Quando Simão o trouxe de volta para casa, Jesus teve uma conversa com o garoto fugitivo e, já que ele queria ser pescador, Jesus levou-o a Magdala e colocou-o sob os cuidados de um parente, um pescador; e, daquela época em diante, Judá trabalhou bastante bem e regularmente até seu casamento, continuando como pescador depois do seu casamento.

Afinal chegou o dia em que todos os irmãos de Jesus já haviam feito a escolha dos seus trabalhos, e das suas vidas, e estavam estabelecidos cada qual em seu trabalho. O cenário estava ficando pronto para que Jesus pudesse partir da sua casa.

Em novembro, aconteceu um duplo casamento. Tiago e Esta se casaram, e Míriam e Jacó também. Foi uma ocasião realmente cheia de alegria. Até a própria Maria, uma vez mais, estava feliz, salvo de tempos em tempos, quando se dava conta de que Jesus estava preparando-se para ir embora. Ela sofria, sob a carga de uma forte incerteza. Se Jesus apenas se assentasse e falasse, livremente a ela, de tudo aquilo, como ele tinha feito quando era menino; no entanto, Jesus permanecia decididamente pouco comunicável; e mantinha um silêncio profundo sobre o futuro.

Tiago e a sua esposa, Esta, mudaram-se para uma casa pequena e agradável, do lado oeste da cidade, presenteada pelo pai dela. Ao mesmo tempo Tiago continuava sustentando a casa da sua mãe, mas a sua cota foi cortada pela metade por causa do seu casamento, e José foi formalmente colocado, por Jesus, como o chefe da família. Judá estava agora enviando a sua parte de contribuição para a casa, todos os meses, fielmente. Os casamentos de Tiago e de Míriam tiveram uma influência bastante benéfica sobre Judá e, quando ele saiu para a pescaria, no dia do duplo casamento, ele assegurou a José de que podia confiar nele “para cumprir todo o meu dever, e mais, se for necessário”. E ele cumpriu a sua promessa.

Míriam vivia na casa de Jacó, que era contígua à de Maria; Jacó, o pai, havia sido enterrado com os seus antepassados. Marta tomou o lugar de Míriam no lar, e a nova organização já estava funcionando perfeitamente antes que aquele ano chegasse ao fim.

No dia seguinte àquele duplo casamento Jesus teve uma importante conversa com Tiago. Ele disse a Tiago, confidencialmente, que estava se preparando para deixar o lar. E presenteou Tiago com o título de posse total da loja de reparos; formal e solenemente ele abdicava-se de ser o chefe da casa de José, e de um modo bastante tocante, estabeleceu o seu irmão, Tiago, como o “chefe e protetor da casa do meu pai”. Ele redigiu, e ambos assinaram, um acordo secreto no qual ficava estipulado que, como retorno pela dádiva da loja de reparos, Tiago assumiria daí em diante toda a responsabilidade financeira pela família, assim desobrigando Jesus de todos os compromissos posteriores quanto a essas questões. Depois que o contrato foi assinado, depois que o orçamento ficou arranjado e de um modo tal que todas as despesas da família seriam cobertas, sem qualquer contribuição de Jesus, Jesus disse a Tiago: “Mas, meu filho, eu continuarei a enviar a todos vós alguma coisa, todos os meses, até que a minha hora chegue. E o que eu enviar será usado por ti segundo as necessidades das ocasiões. Use as minhas economias para as necessidades da família ou para os prazeres, como julgares adequado. Use-as no caso de doença ou aplica-as para emergências inesperadas, que podem suceder a qualquer membro individual da família”.

E assim, dando-se como pronto para entrar na segunda fase da sua vida adulta, Jesus encontrava-se totalmente liberto da sua família, antes de ocupar-se publicamente dos assuntos do seu Pai.

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